Por Diego Amaro de Almeida e
Maria Clara Carvalho de Almeida
Antigamente, as mulheres não participavam diretamente das brincadeiras de carnaval, pois as ruas eram consideradas um espaço predominantemente masculino. Durante séculos, elas limitavam-se a observar as festividades das janelas dos sobrados, enquanto os homens tomavam as ruas com suas celebrações e folguedos.
O entrudo, uma das primeiras manifestações carnavalescas no Brasil, era uma rara oportunidade de interação social para as mulheres. Como destaca Luiz Felipe Ferreira, criador do Centro de Referência do Carnaval e professor do Instituto de Arte da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), elas utilizavam os limões-de-cheiro para lançar nos rapazes por quem tinham interesse, iniciando, assim, um flerte dentro da folia.
A partir da metade do século XIX, o Brasil começou a adotar um carnaval mais sofisticado, inspirado nos costumes europeus. Bailes de máscaras, fantasias elaboradas e desfiles de carros alegóricos passaram a compor a festividade, mas sua organização continuava sob domínio masculino. As mulheres, apesar de presentes, permaneciam como espectadoras, sem um papel ativo na festa.
Curiosamente, a realização desses eventos requintados contava com o auxílio das prostitutas polonesas e francesas que frequentavam as casas mais abastadas. Muitas delas, que nunca haviam sequer pisado na Europa, contribuíam para a ambientação europeizada do carnaval e, em alguns casos, chegavam a desfilar nos carros alegóricos trajando pouca ou nenhuma roupa.
A insatisfação feminina diante dessa exclusão fez com que algumas mulheres buscassem apoio no escritor José de Alencar. Figura influente da época e defensor de questões nacionais, ele oferecia uma plataforma para dar voz às reivindicações femininas. Foi nesse contexto que, em 1907, surgiu o corsos, um desfile onde as famílias mais ricas percorriam a antiga Avenida Central em automóveis luxuosos. A iniciativa partiu das filhas do presidente Afonso Pena e rapidamente foi adotada por outros donos de carros da época. No entanto, as mulheres ainda ocupavam um papel secundário, sendo identificadas principalmente como filhas ou esposas.
Somente a partir da segunda metade do século XIX esse controle sobre a participação feminina começou a se afrouxar. O surgimento dos cordões, blocos e ranchos carnavalescos — manifestações populares organizadas, em grande parte, por tias baianas — abriu espaço para que as mulheres finalmente entrassem no carnaval de forma mais ativa. Nesses grupos, fantasiadas e envolvidas nas brincadeiras, elas passaram a ocupar um lugar de protagonismo dentro da festa que, até então, lhes era negado.
CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. O carnaval carioca: dos bastidores ao desfile. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1995.
FERREIRA, Luiz Felipe. Carnaval, identidade e cultura: Um estudo sobre as representações do carnaval no Brasil. Rio de Janeiro: Centro de Referência do Carnaval/UERJ, 2010.